O caminho marítimo para as Índias, aberto com a expedição de Vasco da Gama (1497), consolidou a presença marítima nas rotas comerciais pelos portugueses, o que levou ao contato com povos antes desconhecidas no Ocidente. Ora, conhecer um povo é conhecer seus hábitos, linguagens, formas de ser e agir, comer ou perceber os sentidos. Assim se deu com o mais amplo conhecimento dos efeitos medicinais das plantas das Índias, já conhecidos através da influência moçárabe na Península Ibérica.

 

Em 1534, acompanhando Martim Afonso de Sousa, Vice-Rei das Índias, chegou a Goa o “físico” Garcia de Orta, médico pessoal do governador. Nascido em Castelo de Vide, em 1501, estudou na Espanha e se tornou bacharel em Artes e professor em Medicina e Filosofia Natural, na Universidade de Lisboa. Ao se deparar, nas Índias, com a imensa variedade da flora tropical, resolveu dedicar-se ao estudo daquelas plantas com efeitos medicinais.

 

Em abril de 1563, Garcia de Orta publicou a obra Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia, na qual exalta o amor dos indianos pelas flores e aromas. Afirma que o indiano deixa de comer o que tem para gastar em cheiros “asi como sândalo… e linaloe, e quem mais pode ambre e almisque e algalia.”

 

A estrutura literária da obra de Garcia é inovadora, porque acrescenta descobertas e, sobretudo, contradiz conhecimentos clássicos considerados “intocáveis” pelos cientistas da época. Assim, Orta opta por fazer um diálogo com uma personagem fictícia, a qual faz as perguntas incómodas ou colocas as questões que precisam de ser rebatidas, a quem o próprio autor responde, evitando assim de apontar o dedo diretamente a autores específicos antigos. 

 

Quando Charles de L’Écluse (Carlos Clúsio) viaja por Portugal, entre 1564 e 1565, toma conhecimento da obra do Garcia  -- que acabara de ser publicada --, percebe o seu conteúdo inovador e decide adaptá-la e traduzi-la, reunindo também um conjunto de espécimes botânicos reproduzidos em em xilogravura na sua obra História dos Aromas...

 

A seguir, Cristóvão da Costa, praticamente contemporâneo de Garcia de Orta, se baseia a tal ponto na obra deste autor que chega a citá-lo como subtítulo na própria folha-de-rosto Tratado das Drogas e Medicinas das Índias Orientais. Assim está escrito: “no qual se verifica muito do que escreveu o Doutor Garcia de Orta”. O trabalho de Cristóvão incorporou ao texto mais de 40 xilogravuras originais, desenhadas a partir das próprias observações deste médico que também prestou serviços na Índias. 

 

Na fase do final do século XVI, começam depois a surgir obras botânicas similares em vários contextos europeus, pelo que uma das frentes de abordagem pode ser precisamente o efeito-gatilho que a obra de Garcia de Orta terá provocado.